INÍCIO COMISSÃO ORGANIZADORA Español
VI Encontro Americano de Psicanálise da Orientação Lacaniana
22 e 23 de novembro de 2013Hotel Panamericano
Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real

Atividades preparatórias

Noche de Presentación del VI ENAPOL

"Hablar con el cuerpo. La crisis de las normas y la agitación de lo real."

A noite de quinta-feira, 8 de agosto, foi a ocasião para a segunda e última das noites de apresentação do VI ENAPOL.

Outros três grupos de investigação, coordenados por Guillermo Belaga, Ennia Favret e Adela Fryd, apresentaram o estado de seu trabalho, dessa vez com os comentários de Juan Carlos Indart e a coordenação de Ricardo Seldes.

Uma assistência em sala cheia e atenta, testemunho do interesse que gera o Encontro, participou do debate dos trabalhos que lhes apresentamos hoje. "Bipolaridade: Mania e Melancolia", "Corpo Cosmético" e "Crianças mestras", três antecipações do que conversaremos na jornada de 23 de novembro.

A Conversação é uma atividade para a manhã de sábado, 23 de novembro no VI ENAPOL. 14 conversações simultâneas. A Direção Executiva propôs 14 membros de cada Escola: EOL, EBP e NEL para dirigir um trabalho de investigação durante o ano de 2013 sobre o tema extraído dos Eixos e sub-eixos publicados no Boletim CORPOaTEXTO número 5, disponíveis na página www.enapol.com. Os três membros de cada Conversação, por sua vez, formaram um pequeno grupo de trabalho entre 5 e 15 pessoas entre os que investigaram o tema proposto e todos eles animarão a Conversação durante o ENAPOL para a qual convidamos todos.

Os textos sobre o que conversaremos estarão disponíveis proximamente na página da web do Encontro para sua leitura em suas versões em castelhano e português.

Estejam atentos e até a próxima semana!

 

"Bipolaridade": Mania, Melancolia
Guillermo Belaga (Responsável, EOL)

"No mundo da psiquiatria as classificações nos dizem mais sobre o mundo social e estético no qual foram construídas que sobre (sua) natureza".
G. E. Berrrios [1]

1. Introdução
O modo em que está colocado o título do presente trabalho tenta aludir à tensão que existe entre estes termos no debate atual.

De tal forma que o transtorno bipolar, por um lado, e a mania e a melancolia, por outro, têm diferentes origens temporais e se inscrevem em diferentes paradigmas dento da psiquiatria.

A mania, a melancolia e a loucura circular da Escola Francesa, a psicose maníaco-depressiva da Escola Alemã, respondem aos grandes relatos que se conhece como a "psiquiatria clássica". Por sua vez, G. Lantéri Laura [2] descreveu uma série de paradigmas da psiquiatria moderna consignando que estas descrições se ajustam ao paradigma das enfermidades mentais de maneira mais precisa que o paradigma alienista de Pinel e Esquirol e que justamente se inaugura no século XIX com J. Falret com sua descrição da loucura circular e se extende até a morte de H. Ey na década de setenta do século XX.

2. A razão da "Bipolaridade" e sua época
A "bipolaridade" toma sua forma atual inscrevendo-se no paradigma tecnológico que, sobretudo a partir dos anos 80-90, leva a considerar a psiquiatria como "uma neurociência clínica".

Em 1957 Karl Leonhard propõe uma classificação das psicoses endógenas baseadas na polaridade. Assim surge essa entidade cujo antecedente iniludível são as psicoses maníaco-depressivas descritas por E. Kraepelin que agrupa os quadros afetivos nessa única categoria.

A partir do DSM III (1980) se "expressa" claramente o paradigma tecnológico na psiquiatria. Nessa edição do manual de diagnóstico se incorporam decididamente o transtorno bipolar de Leonhard e se exclui precisamente a histeria, que fala de um corpo erógeno que não se prende ao corpo biológico, e se desarticula a relação angústia-sintoma, angústia-ato.

3. O "Espectro Bipolar"
A partir do paradigma tecnológico o modelo de estudo que as neurociências impuseram é o "espectro epilético". Desse mesmo paradigma tem surgido outros tantos no campo da psiquiatria e os mais conhecidos são: o espectro autista e o que estamos estudando, o espectro bipolar.

Essas classificações surgem de uma prática nova que vem se impondo no século XXI determinada por dois fatores históricos, dois discursos: o discurso da ciência e o discurso do capitalismo [3]. Nos dizeres de J.-A. Miller, a dominação combinada desses dois discursos conseguiu destruir a estrutura tradicional da experiência humana. Ainda assim algo que interessa particularmente para nosso tema é que o sujeito construído pelo discurso do capitalismo está organizado para conceber-se a si mesmo como empreendedor, como empresário de si, entregue à maximização de seu rendimento.

O sujeito que se inscreve no "espectro bipolar" é o que não alcança esse "management da alma".

Deve-se esclarecer que esse debate rebaixa, inclusive, a edição vigente do DSM. Para entender a diferença, os DSM reconhecem os tipos I ao III e um transtorno bipolar "não especificado", não enquadrado pelas outras descrições. Diferentemente, o "espectro bipolar" seria um quadro contínuo que vai do temperamento extremo ao desencadeamento pleno da enfermidade afetiva, incluindo os subtipos I; II; II½; III; III ½; IV; V e VI.

De tal forma que não só abarcaria a depressão unipolar; também o narcisista e o bordeline, os quadros "induzidos por substâncias" e o "psicopático".

Resumidamente o "espectro bipolar" reafirma um modelo biomédico, sublinhando um corpo vivo através do conceito de temperamento e os fatores genéticos. Por sua vez, esses últimos, junto à convergência com o objeto técnico de consumo, representa um "bioengineering", uma tecnologia do eu sustentada em um darwinismo social.

4. Os aportes freudianos
Em Freud poderíamos situar o seguinte: primeiro o que lhe interessa é definir o registro da perda de objeto. Em conexão está o modo pelo qual Freud pensa a natureza do objeto, reconhecendo-se em sua maneira de denominá-los os registros imaginário, simbólico e real: objekt, sache, ding (respectivamente). Por último chama-nos atenção o modo como, para explicar o problema da melancolia, Freud faz referência a um caso de catatonia.

Esses pontos permitem algumas conclusões: a não perda de das Ding, a Coisa. Isso torna possível colocar um par esquizofrenia/melancolia no que diz respeito aos fenômenos de corpo (a linguagem de órgãos/a hipocondria melancólica e a síndrome de Cottard). Relacionando a conexão entre o ódio e o supereu e das Ding, como também entre esses conceitos e a passagem ao ato.

Por último a tese para as psicoses de um tipo de escolha de objeto relacionada ao narcisismo primário.

Nesse sentido o que Freud considerou como narcisismo primário, Lacan o situa no nível do gozo puro e isolado do objeto a.

5. Ato melancólico e ação maníaca
Duas vinhetas clínicas permitem ilustrar as definições de Lacan, principalmente do Seminário A Angústia e Televisão, e a importância que deu ao conceito clássico de kakon (o mal).

A melancolia definida a partir do ato. O caso mostra o ódio como "único sentimento lúcido" e como o sujeito deve atacar, para se liberar, o gozo autoerótico demasiado, mediante o ato suicida/homicida.

A mania definida a partir da ação até seu esgotamento. A excitação maníaca, o rechaço do inconsciente, a "não função do objeto a" se veem ilustrados por esse caso. O sujeito testemunha um quiasmo radical: o significante está em pura metonímia, por um lado e por outro, o ser do vivente.

O empuxo de lalíngua que assedia e dissolve a linguagem até que consegue se fazer mestre do significante, o suficiente para que o seu "apuro" já não seja mortífero.

O que se pode destacar ao localizar essas posições é que elas também orientam no tratamento. Em um caso o analista tenta postergar o ato, que é sua referência. No outro caso se faz partícipe da ação, "secretário" da mesma para, sem aplacá-la totalmente, consiga um funcionamento.

6. Conclusão
No Colóquio sobre o Curso "Sutilezas analíticas", É. Laurent disse que "há muitos elementos da clínica de nossa época que vão na direção da produção de uma clínica separada de lalíngua".

A investigação desemboca em uma tensão: os DSM, por um de lado, com seu sonho de um sintoma sem inconsciente, e, por outro, o sinthome, que permite reordenar a clínica analítica a partir de lalíngua, mas com uma perspectiva também desabonada do inconsciente.

* Membros do grupo de trabalho: Alejandra Glaze, Leticia Acevedo, Lisa Erbin, Virginia Walker, Adriana Rogora, Delfina Lima Quintana, Valeria Cavalieri, Inés Iammateo, Luciana Nieto, Daniel Melamedoff, Ramiro Gómez Quarello.
Tradução: Jorge Pimenta

  1. Berrios, G. E., Hacia uma nueva epistemologia em psiquiatria, Polemos, Bs. As., 2011.
  2. Lantéri-Laura, G., Ensayo sobre los paradigmas de la psiquiatría moderna, Triacastela, Madrid, 2000.
  3. Miller, J.-A., "Lo real en el siglo XXI", El orden simbólico en el siglo XXI no es más lo que era, ¿Qué consecuencias para la cura?, Grama Ediciones, Bs. As., 2012, pp. 425-436.

 

Corpo cosmético. Cinco notas para um relato
Ennia Favret (Responsável, EOL)*

1 - O Corpo: O corpo lacaniano é primeiro imaginário, o valor fálico da imagem do corpo, a completude especular que se estabelece sobre uma clivagem entre o corpo real e a imagem, referido ao termo "deiscência", extraído da botânica, para falar da falha, a partição.

"O corpo é introduzido na economia do gozo pela imagem do corpo. A relação do homem com seu corpo, se algo sublinha bem que é imaginário é o alcance que tem nele a imagem" [1]. Neste texto Lacan fala da consistência imaginária, termo que convida a pensar um enodado de modo borromeano e isso tem consequências. "Eu tenho um corpo" e não "Eu sou um corpo".

2 - O cosmético: Se procurarem no Google "real", a primeira resposta encontrada é l'oreal! Talvez não devesse surpreender que a primeira coisa que se cruza antes de toparmos com o real é algo da ordem do cosmético. Marca internacional massificada que não busca só homogeneizar o produto, mas o consumidor. O mercado propõe o standard e a ciência o torna possível.

Na dupla perspectiva da etimologia de Kosmos (vertente grega e romana que ressalta o mundo e o imundo), consideramos cosmético tanto aquele tratamento dado ao corpo que encobre a castração com o véu da beleza como a seu oposto, o que desnuda, revela.

Quando a cosmética vela a castração, há uma articulação a uma falta. Mas se a imagem é a de uma perfeição sem fissuras, entramos em uma dimensão diferente, é uma cosmética paradoxal: Lera Lukyanova moldou com intervenções cirurgicas sua fisionomia para ser uma Barbie de carne e osso.

Trata-se de um gozo desregulado, na busca de uma proporção perfeita que acaba parecendo mais o morto que o vivo como no excesso de desproporção que mostra as deformações.

3- De "cosmetizar" o corpo ao corpo como cosmético, produto: A tradição acadêmica acreditava na existência de um corpo perfeito, ideal de mensuração, que foi transgredido e denunciado pelas práticas de Body Art, a partir dos anos 70.

Os corpos marcados, tatuados de acordo com certas regras, correspondem à idéia de um corpo simbolizado; não ocorre o mesmo com intervenções nas quais um imperativo supergoico roça a infinitização. São tatuagens e escarificações que têm um estatuto diferente, não só se trata de querer substituir ou modificar as características biológicas herdadas, mas que não estão articuladas a sentido algum.

Santiago Sierra faz uma tatuagem: "uma linha de 250 cm sobre 6 pessoas pagas."; seres anônimos que aceitam uma marca permanente em seus corpos. O artista trata o corpo como uma mercadoria, um material para a criação.

4 – Do velamento da castração na tentativa de eliminar o impossível: A distância temporal que há entre o belo conto de N. Hawthorne, "A marca de nascença", de 1800, na qual a eliminação da singular mancha se elimina a vida e o atual filme O tempo de Kim Ki Duk, não faz mais que evidenciar a permanência dos esforços desesperados aos recursos científicos para tornar possível o impossível da relação sexual.

5 - Da transgressão a desordem de gozo: O preformismo, muito em voga nos anos 70, mantém sua atualidade, colocando a noção de "ato" no centro de seu discurso. O ato requer, como na psicanálise, a presença de um corpo, sua materialidade.

Quando Orlan, em Maio de 68 propõe "Eu sou um homem e uma mulher", esta tentativa de apagamento do impossível aparece mais tarde em suas intervenções corporais. Denuncia os padrões de beleza construindo-se um corpo como quem faz uma escultura: "meu trabalho está em luta com o inato, o inexorável, o programado, a natureza, o DNA, isto é para me empurrar a arte e a vida até seus extremos".

Foram práticas que tentavam denunciar os padrões de beleza e de arte como uma mercadoria, marcadas por um teor transgressor. Atualmente encontramos práticas artísticas cujo infrator já não é um transgressor, mas que evidenciam o transtorno do gozo, o transtorno da sexualidade. O indizível se mostra: "A arte para outra coisa".

É paradigmático de certas práticas artísticas que têm o corpo como protagonista principal o dito por Gérard Wajcman da fotografia de Nan Goldin: "é uma grande artista do mal estar no gozo, da desordem do amor (...) as imagens perderam todo seu brilho (...) é a hora do falo rebentado: caído, murcho. Nem feio, nem provocativo, nem repulsivo, nem excitante: simplesmente verdadeiro".

O analista opera nessa hiancia inofensiva a qualquer cosmética: "Há coisas que fazem o mundo ser imundo (...) é disso que os analistas se ocupam, de maneira que, contrariamente ao que se acredita, se confrontam muito mais com o real que os cientistas. Só se ocupam disso. Estão forçados a sofrer, ou seja, a colocar no peito o tempo todo " [2].

Tradução: Eduardo Benedicto
* Membros do grupo de trabalho: Marcelo Barros, Gabriela Basz, Juan Bustos, Marisa Chamizo, Guillermo Lopez, Silvia Vogel e Diana Wolodarsky.

  1. Lacan, J., "La tercera", Intervenciones y textos 2, Manantial, Bs. As., 1991, p. 91.
  2. Lacan, J., El triunfo de la religión, "La angustia de los científicos", Paidós, Bs. As., 2006.

 

Crianças senhores
Adela Fryd (Responsável, EOL)

Nossa casuística leva-nos ao espaço que se abre na dialética imaginária, em virtude do desejo de fusão da mãe dos anos 60. Filhos caprichosos que mostram que o "eu quero" é anterior ao "eu penso". Acreditam-se artesãos de seus próprios destinos, mas não sabem quão comandados estão por não reconhecerem as marcas do Outro. A mãe acolhe o filho e fala com ele numa língua que chamamos "língua materna". A experiência analítica mostra a importância dessa língua no deciframento dos modos de gozo de um sujeito. Aqui, falha o modo como foram alojados em relação à língua.

Nessas crianças, a pulsão entrou em curto-circuito. Pode ocorrer que se identifiquem com o objeto, se apoderem de um significante e, com ele, tentem separar-se dele, ficando esse eu ligado ao gozo pulsional. Por isso, não cessam de circunscrever o objeto.

O objeto olhar não aparece. Não se relacionam com o enigma do desejo do Outro e pretendem ser olhados. Ao não esperar a voz do Outro (" o que me dirá?", " o que espera de mim?"), não se produz o recorte dessa voz. Quando há uma permuta com a língua materna, isso marcará a presença do objeto. É o que chamamos as preferências, os gostos. Nessas crianças, a defesa é a indiferença e o aborrecimento.

Outro aspecto é que, nas crianças senhores, a solidão pulsional aparece de forma desmedida, atraindo para ela a maioria dos objetos de troca. Elas entram como devoradas, ou sentem seus corpos cortados em pedaços que não existem, a não ser em suas cabeças. Constata-se que a atenção dessas crianças encontra-se fixada sobre a libido da mãe. Atualizar a parceria sintomática da criança e sua mãe é possível se articularmos a agitação pulsional com a estática da fantasia materna. Cada vinheta clínica demonstra o casal que formam o filho dinamite e a mãe excessiva.

Esta clínica do corpo é certamente oposta à estática da fantasia. As necessidades só se satisfazem através dos movimentos sem ritmo, errantes, com um deslizamento interminável da metonímia, vertente mortal da excitação.

O caso, que trabalhamos, colocou-nos diante de uma recusa do Outro materno em oferecer um significante que o sujeito possa assumir, ao invés de uma confusão de signos à qual responde com agitação pulsional. Como respondemos, a isso, em nossa prática? Como fazê-los respirar, ali, onde o gozo sufoca?

Neste ponto, gostaríamos de introduzir uma discussão interessante que se apresentou na primeira conversação. Consideramos que, nessas crianças, não há sintomas. Isto que nos mostram não é uma solução, mas uma resposta; autismo do gozo não dirigido ao Outro. São comportamentos que garantem a possibilidade de seguir gozando de uma forma que os excede. Pode ser uma resposta frente ao real, mas da qual o sujeito não pode fazer um uso.

Os problemas que encontramos são problemas de gozo não dissociados daquilo que a criança é como objeto para o Outro. Não podemos ler em seu dizer sua escolha de gozo. Nessas crianças, não nos parece que haja uma invenção que seja uma solução. Pensamos que tais comportamentos ‒o quebrar, as brigas, ou o negativismo absoluto‒ são elaborações de uma resposta. O analista deverá seguir o caminho deles, a fim de construir outra resposta que mostre ao Outro de uma maneira diferente. Em algumas dessas crianças não há marca, em outras um S1 superegoico, em outras uma nebulosa. Com eles, tratar-se-á de desembaraçar ou de fazer aparecer sua invenção ali onde a língua não foi transmitida. Ordenar essa confusão de signos transporá o efeito da língua para um efeito sobre o corpo, e, então, não será mais somente um corpo que se agita.

Embora esteja obturada, trata-se de levar a sério sua resposta a essa agitação, a esse "não" ao qual não se deve nem compreender nem encarcerar em um sentido que não lhe é próprio, para que possa fazer uso do seu, de uma forma diferente. Buscar-se-á captar a língua própria da criança, bem como inseri-la em uma sequência que dê conta dela. Poderemos esclarecer algo da língua materna que não se produziu nesse laço por uma falha na transmissão.

Tradução: Elizabete Siqueira

 

Noite de Apresentação do VI ENAPOL

"Falar com o corpo. A crise das normas e a agitação do real"

Em 13 de junho passado foi realizada, na sede da EOL, a primeira noite de apresentação do VI ENAPOL.

Um público numeroso e entusiasta compôs o cenário para a apresentação dos trabalhos de três grupos de pesquisa que farão a Conversação do dia 23 de novembro. Esses textos, mais a animada coordenação de Patricio Alvarez e o diálogo agudo de Graciela Brodkky fizeram daquela noite uma festa.

O extrato dos trabalhos apresentados por Marina Recalde, Raquel Vargas e Fernando Vitale fazem nosso TEXTOaCUERPO desta semana. Uma série que coloca os pontos de elaboração atuais sobre os temas "Histeria hoje", "Corpo de homem" e "Corpo de mulher". Ao mesmo tempo, servem como um preâmbulo para a segunda noite de apresentação Enapol, que terá lugar no 8 de Agosto, onde três participantes da Conversação mostrarão o estado de trabalho de suas pesquisas.

A Conversação é uma atividade marcada para a manhã de sábado, 23 de novembro, no VI ENAPOL e composta por 14 Conversações simultâneas. A Direção Executiva propôs 14 membros de cada Escola, EOL, EBP e NEL, para dirigir um projeto de pesquisa em 2013, sobre um tópico extraído dos Eixos e sub-eixos publicados no boletim CORPOaTEXTO No. 5, disponível na pagina www.enapol.com. Os três membros de cada conversa, por sua vez, formam um pequeno grupo de trabalho entre 5-15 pessoas que investigam o tema. E todos eles incentivaram a Conversação durante o ENAPOL.

Na próxima Noite de 8 de agosto, teremos outra prévia do Encontro em novembro. Vemo-nos lá.

Até a próxima!

 

Corpo de mulher
Fernando Vitale (Responsável, EOL)

Membros do grupo de trabalho*:
Eduardo Benito, Graciela Chester, Viviana Fruchtnicht, Cecilia Gasbarro, Jose Lachevsky, Esteban Klainer, Jose Luis Tuñon y Fernando Vitale.

Encontrara-me com uma referência, que Miller pontuara quando apresentou o Seminário 4, e que era a seguinte: Lacan, ali, propusera como uma das possíveis vicissitudes da pulsão, o ficar confinada a converter-se em uma tentativa extrema de compensar e tentar aplacar o que pode ter de insuportável a decepção experimentada no que chama de o jogo simbólico dos signos de amor. Relida, pareceu-nos uma referência útil para tentar explorar a prevalência inusitada que ia tomando na clínica feminina os chamados transtornos de alimentação. Como propôs, também, Eric Laurent, somente a revisão de nossas rotinas pode nos permitir aproximarmo-nos do que escapa, e, por isso, nos dedicamos a rever as sucessivas leituras que Lacan fez do Édipo feminino. Apresentei um resumo muito abreviado do que foi obtido no trabalho realizados nessas noites, e nas jornadas sobre "O amor nos tempos do gozo", a que dei o título de: "O gozo e os tempos da frustração".

Não posso estender-me nesse ponto, mas vale à pena sublinhar que o que Freud colocava, como a particular sensibilidade feminina à decepção amorosa, foi reformulado por Lacan como inerente às características próprias de um modo de gozo, que tem que passar por alguma forma de exercício possível do amor no laço com o parceiro.

Outra questão que, então, recortamos foi sobre o estatuto problemático do que chamamos, identificação ao falo na clínica feminina atual; ou seja, aquilo que aprendemos como o que é o porto seguro da entrada da menina no Édipo lhe permitia, por intermédio de sua identificação ao pai: poder subjetivizar. O que muitas mulheres falam com seus corpos e seus sintomas é que isso que chamamos o manejo da mascarada, enquanto véu da falta que dá início aos jogos eróticos com o parceiro, fica subsumido, em muitos casos, a um submetimento infernal à tirania de rotinas e meras instruções de saber desarticuladas da identificação ao falo propriamente dita.

Com relação a esse ponto, achamos interessante nos determos em algo que Lacan coloca no último capítulo do Seminário 18. É ali que ele considera dispor da articulação que lhe permite esclarecer o que faz com que o que chamamos o falo e o Nome-do-pai apresentem-se-nos como indiscerníveis em nossas argumentações teórico-clínicas. Tal articulação, diz-nos, obteve-a deixando-se guiar pela clínica da histeria. Sem a histérica nunca teria podido se encontrar com a escrita do que chamará o gozo fálico como função e nos diz que Freud conduz-nos a isso desde seus primeiros "Estudos sobre a histeria". Dirá, então, que o gozo fálico é aquele que a linguagem denota sem que nunca nada responda por ele. Desse gozo opaco nunca sairá nenhuma palavra e que foi por isso que, primeiramente, a histeria conduzira-o à metáfora paterna e ao seu enlaçamento à lei; isto é, ao apelo que realiza a que algo responda no lugar disso que em si nunca dirá absolutamente nada.

Isso permite-nos distinguir o que chamamos as identificações ao falo, às quais, pela mediação do seu amor ao pai, uma mulher pode enodar-se, enquanto resposta a isso que nunca lhe dirá nada; das vicissitudes da confrontação traumática com o gozo fálico enquanto tal e dos acontecimentos de corpo que disso resultam. A essas respostas, por sua parte, a histérica sempre se acomodou incomodando-se, como diz Lacan no Seminário 17, e por isso manteve na instituição discursiva o questionamento de que nenhuma delas era resposta à relação sexual propriamente dita.

Podemos afirmar então, que o que vemos, com mais clareza, atualmente, é o desvelamento dessa confrontação traumática e as novas invenções que cada corpo de mulher vai encontrando frente a isso, mais além do tradicional ordenamento edípico.
Concluo com uma pregunta: como propõe o texto do Eric Laurent, ao que responde a releitura da histeria que Lacan realiza no seu último ensino? Por que volta a debruçar-se sobre isso? Pode-se pensar a histeria sem o Nome-do-Pai? (1)

Tradução: Elizabete Siqueira

* Em 2010, realizamos outro ciclo de noites, cujo título foi " Sintoma e frustração, casos de mulheres".

Notas

  1. Pode ler o texto completo em: /es/template.php?file=Textos.html

 

Corpo de homem: Homem, um dos sentidos do corpo
Raquel Vargas (Responsável, EOL)

Membros do grupo de trabalho:
Laura Darder, Analía Cross, Roberto Cueva, Gabriela Scheinkestel, Estefanía Elizalde, Lorena Hojman, Denise Engelman, Jesica Lagares, Raquel Vargas.

"Deseo decir en formas ya mudadas en nuevos cuerpos"
Ovidio, Las metamorfosis, Libro I

Se o provérbio chinês é certo e o mais obscuro está sempre sob a lâmpada, então corpo "de" homem é um título que não se deixa iluminar tão facilmente e abala o pretensamente natural. Se tomarmos "corpo" e "homem", separadamente, tanto uma como a outra palavra pode seguir sozinha. E a partícula "de" é uma articulação especial como a do signo losango e alcança algo assim como variações sobre o corpo.

O falo arma tanto o corpo do homem como o das mulheres. Quais são as diferenças? São hierarquias do falo, falocracias, como se lamentam os teóricos dos estudos de gênero? Em um desses ensaios (1) fazem um percurso para abordagem da sexualidade masculina a partir do conceito de falo. Falam, entre outras coisas, de "mal estar dos machos" e colocam entre aspas o assunto do "enigma" do feminino freudiano. Tomam Lacan a partir da "Significação do falo" e concluem que Freud se debateu inutilmente tratando de definir a feminilidade e assim de definir um novo objeto de estudo; o homem também falha.

"Homem" e "mulher" são significantes que perdem suas forças simbólicas. Há mutações.

Na antiguidade, a poesia, as fábulas, os mitos explicavam os grandes enigmas do mundo tão próprio e distante. A ciência foi despojando as palavras da magia e criando outras. É difícil fazer da palavra "gênero", poesia. Metrossexual, viagra, próteses, novas palavras listadas em um discurso que aspira ao corpo teórico que obtenha uma ciência do real. "Mas, estaremos nós à altura do que parecemos, pela subversão freudiana, ser convocados a carregar o ser-para-o-sexo?". (2)

O inconsciente em seu florescer pode convocar à nostalgia e uma prática que se apoie nela é puro idealismo. Sem nostalgia e sem idealismo, como definimos as coisas, qualquer delas? Lacan diz, através de Crátilo de Platão, o que acontece com as palavras na poesia. São bichinhos que fazem o que lhes dá vontade. (3)

Há pouco tempo, residentes quiseram tirar uma fotografia com Éric Laurent, que posou alegre e cordialmente junto à juventude lacaniana, como a chamou. Essa juventude e tantas outras trabalham em algumas frentes de nossa cidade, onde os conceitos se põem a tremer. O falo é realmente prêt-à-porter? O falo que deriva do pai não está sempre pronto para se usar. Diferentemente o inconsciente é o mais democrático que há. Não achamos que haja realmente falocracia. Não achamos nas propriedades do falo a democracia que demonstra o inconsciente, que mesmo empalidecendo, diz Lacan, não se lamenta, já que é aí mesmo, inclusive em sua palidez, em que se assume o registro do vivo da prática.

Daí não se fazer ciência do real através da sociologia, da filosofia, inclusive da psicanálise. Não à nostalgia de outras épocas do inconsciente em flor, não ao assistencialismo dos que recebem duros golpes dos abalos das normas. O que nos resta?

Se a pulsão traz alguma mensagem em seu circuito é para dizer que não tem nenhuma possibilidade de converter em ciência os ecos do corpo. Fazer da pulsão poesia nos parece mais apropriado. Corpo de homem, se tal questão se apresenta para o sujeito, será para ser decifrada. O corpo decifrado é um corpo para todo o uso. (4)

O homem é, também, um mestre inventado para apaziguar a escravidão do corpo. Um Odisseu, uma odisseia para se fazer homem: afastar-se das mulheres, mas não tanto; da mãe, mas seguir venerando-a; dos homossexuais, salvo em um clube de luta ou nos gramados; e das crianças, tudo o que se pode dissimular. Há uma pluralidade de respostas nos diferentes mapas e territórios, múltiplas trincheiras do corpo humano.

X é dez vezes maior que Y! Essa é uma revelação da embriologia e a resposta que Tirésias pagou com um duplo castigo, perdeu seu corpo de homem e quando o recuperou o teve, mas, com um ponto cego se fez olhar oracular.

Aceitamos que X e Y, quaisquer que seja o seu tamanho, se apresentem à mesa de discussão. E o aceitamos porque preservamos o pequeno x que sustenta um enigma.

Tradução: Jorge Pimenta

Notas

  1. Burin,M., Meler, I., Varones, Género y Subjetivad Masculina, L. M., Bs. As., 2000, p. 155.
  2. Lacan, J.," Alocución sobre las psicosis del niño", Otros Escritos, Paidós, Bs. As., 2012, p. 385.
  3. Lacan, J., "Radiofonía", Otros Escritos, op. cit., p. 427.
  4. Laurent, E., "Poética Pulsional", La Carta de la Escuela.

 

A histeria hoje
Marina Recalde (Responsável, EOL)

Membros do grupo de trabalho:
Jorge Assef, Cecilia Rubinetti, Ruth Gorenberg, Nora Capelletti, Paula Gil, Marcela García Guida, Celeste Viñal e Marina Recalde.

Começamos, interrogando a premissa pela qual fomos convocados: "a histeria hoje". Ou seja, que situava afirmativamente que existe uma histeria, hoje. Perguntamo-nos, ao pensar os casos atuais e também os fundamentos da própria psicanálise, sobre o que faz com que hoje possamos afirmar: trata-se de uma histeria. Quer dizer, quais são os parâmetros que nos orientam para indicar que se trata, ou não, de uma neurose histérica. Assim, chegamos à premissa de que iríamos nos orientar pelo pai, o falo, o sintoma, a Outra mulher, o laço com o Outro e o desejo. Noções que pareciam ter ficado obsoletas, mas que, no entanto, ainda continuam orientando nossa prática.

Em função disso, fizemos um rastreio das diferentes referências ao pai, ao falo e à histeria, em vários Seminários de Jacques Lacan.

E nos deparamos com a ruptura que ocorre em O Seminário 18, a partir da clínica da histeria, onde ele começa a distinguir falo e Nome-do-Pai: "Mas, enfim, não foi apenas por esse ângulo que contemplei a metáfora paterna. Se escrevi em algum lugar que o Nome-do-Pai é o falo (...) foi porque, na época, eu não podia articulá-lo melhor. O certo é que ele é o falo, sem dúvida, mas é também o Nome-do-Pai. Se o que se nomeia Pai, o Nome-do-Pai, é um nome que tem eficácia, é precisamente porque alguém se levanta para responder". (1) Ou seja, a histérica requer o Nome-do-Pai para fazer falar o referente mudo. E é em relação a esse gozo que se ordenam todos os seus sintomas. O sintoma é o que fala disso mudo, cumprindo a função do Nome-do-Pai de fazê-lo falar.

Nós nos perguntamos então se para constituir (armar) uma histeria é preciso passar necessariamente pelo pai. Se é assim, o que ocorre quando este falha? É possível prescindir do amor ao pai na histeria? Neste viés, há dificuldade de pensarmos porque continuar chamando "histeria" àquilo que Laurent apresenta como "histeria rígida". Evidentemente são casos que não respondem à histeria clássica, mas podemos situá-los como histeria se se situam por fora do sentido? Continua sendo uma histeria quando ela se sustenta sozinha, não necessitando do Nome-do-Pai? Quando nada da significação fálica nem tampouco do amor ao padre pode ser nela situado? Ou, melhor, são apresentações rígidas da histeria, tal como a situa Lacan, o que daria à questão um viés fenomênico e não estrutural?

A histeria seria um modo de defensa diante do real sem sentido. Existem outros, que não têm como referência o pai. Trata-se de histeria?

A bibliografia que até agora trabalhamos ou que pretendemos trabalhar é: seminários de Jacques Lacan, o texto "Falar com seu sintoma, falar com seu corpo", de Éric Laurent, argumento do Enapol, vários textos publicados na web do Enapol a propósito do Encontro, a conferência de encerramento do último Congresso, de Jacques-Alain Miller, o texto apresentado em Miami no encerramento por Maurício Tarrab, o texto de Javier Aramburu "La histeria hoy", o texto de Oscar Zack "Hay otra histeria", a entrevista com Marie-Hélène Brousse sobre histeria, a aula de Claudio Godoy no mestrado, "Consideraciones sobre la histeria", de Lacan, "Efecto retorno de la psicosis ordinaria", os Papers do ENAPOL, Sutilezas analíticas, as 13 aulas sobre O Homem dos lobos, de Jacques-Alain Miller, nossos textos sobre este tema, casos clínicos extraídos de nossos consultórios. Como verão, são muitos textos, mas há algumas questões que são interessantes de colocar em tensão para podermos avançar em relação à histeria.

Tradução: Elisa Monteiro

Notas

  1. LACAN, J. O Seminário, livro 18: de um discurso que não fosse semblante (1971).Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009, p. 161.